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Foto Brasil
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Prefiro sempre trabalhar no estúdio. Que isola as pessoas do
ambiente circundante. E faz delas, num certo sentido (...) um
símbolo de si mesmas. Freqüentemente sinto que as pessoas vêm
até mim para serem fotografadas, do mesmo modo que iriam ao
médico ou à cartomante - para saber como estão. Por isso
dependem de mim. E tenho de atraí-las. Do contrário não há
nada a fotografar. O esforço de concentração é tão intenso
que não se ouve ruído algum no estúdio. O tempo pára.
Gozamos então de uma breve, mas profunda intimidade. Mas que
também é imerecida. Pois não tem passado... nem futuro. E quando a pessoa termina de posar - e o retrato fica pronto -
nada mais resta a não ser a fotografia... a fotografia e uma
espécie de mal-estar. O cliente vai embora... e é como se não
o tivesse conhecido. Mal ouvi o que disse. Se o encontro uma
semana mais tarde em algum lugar, pressinto que não me
reconhecerá. Pois não vejo como possa ter estado presente ali.
Pelo menos parte de mim que estava... agora está na fotografia.
E a fotografia para mim possui uma realidade que as pessoas não
têm. É através da fotografia que as conheço. O que talvez
esteja na natureza mesma da fotografia. Jamais me sinto
realmente comprometido. Não preciso ter nenhum conhecimento
verdadeiro. É tudo uma questão de identificação.
RICHARD A VEDON*
*Texto retirado da obra: "Ensaios sobre a
fotografia", de Susan Sontag.
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RUA XV DE NOVEMBRO, 94 - Um
endereço conhecido com uma história pouco conhecida.
FOTO BRASIL - Um nome familiar
que muitos têm registrado em seus guardados. São momentos
fixados nas imagens produzidas por mãos que agora saem do
anonimato e passam do individual para o coletivo, contando um
pouco do que foram estes 61 anos de trabalho e história.

RUA XV DE NOVEMBRO, 94 - FOTO BRASIL
O começo desta história não é muito diferente das
histórias dos muitos imigrantes que aqui vieram reconstruir
suas vidas.
Foi em 1921 que os alemães Carl e Laura Jacobs com os
filhos Carlos, Erich, Willy, Walter e Johanna, vindos de Barmen,
se estabeleceram em Cruz Machado (União da Vitória),
para ali fazer o cultivo do café; um sonho que não se
concretizou, devido ao solo ser impróprio para a plantação.
Como Carl Jacobs era pedreiro na Alemanha, ele e seus filhos
decidem dedicar-se à construção civil e à pequena
agricultura.
Em 1922, Erich Jacobs, o único dos irmãos que tinha
formação em fotografia, antes de vir para o Brasil, decide
então exercer sua profissão. Sendo assim, vem para Curitiba
trabalhar no Foto Heisler, situado na rua XV de Novembro, onde
atualmente está instalada a Confeitaria das Famílias. Logo em
seguida toda a família Jacobs muda-se também para a capital.
Walter Jacobs, em 1924, vai trabalhar no Foto Heisler,
junto com o irmão, na função de aprendiz, na qual começou
varrendo o chão e lavando as fotografias. Ele mesmo recorda que
"até tirar fotografias, durou uns quatro anos".
Nessa época só se podia fotografar durante o dia e a
máquina era de cavalete, Walter Jacobs conta que "o
próprio Heisler fez fotografias externas a partir de 1925,
quando apareceu o magnésio. O laboratório era muito
rudimentar. A copiadora,por exemplo, ficava sobre um caixote de
querosene. Tinha um único paredão de vidro e também comum só
pano de fundo, pontado.
Em 1929 Walter saiu do Foto Heisler e passou a trabalhar
com Léo Linzmeyer, que tinha seu estúdio na rua XV de Novembro
nº 80, juntamente com os irmãos Antonio e Alexandre.

Finalmente
em 1930, Erich e Walter Jacobs se associaram e instalaram na rua
XV de Novembro nº 94, o estúdio fotográfico IRMÃOS JACOBS. O
prédio ainda hoje guarda as características da época em que
foi instalado. A distribuição dos ambientes era similar à
existente no Foto Heisler: no 1º andar ficava o estúdio,
enquanto que o laboratório e o depósito ocupavam o 2º andar.
Começaram a trabalhar com duas máquinas: uma 10x15 e outra
18x24, ambas com caixa de madeira. Uma delas, a 18x24, foi
fabricada pela firma Hugo Mayer & CO – Görlitz, sendo
utilizada até 1974; hoje ela está exposta na sala de espera do
Foto.
Em
1931 o estúdio fotográfico é registrado na Junta Comercial
com o nome de FOTO BRASIL. Carlos e Willy Jacobs passam então a
fazer parte da sociedade. Neste mesmo ano eles abrem o Foto
Amador Curitybano na entrada do mesmo prédio de número 94.
Este Foto fazia serviços para amadores (revelação) como também
comercializava material fotográfico.

A
clientela curitibana dividia-se então entre os seguintes fotos,
além dos já mencionados: Moderno, Photografia Weiss, de Carlo
Brenner, Photo Progresso, Photo Studio, entre outros.
Nessa
época o material utilizado pela maioria dos fotógrafos era
adquirido através dos importadores Schiller e Schneiker. Este
último chegou a comercializar os papéis: Mimosa, Agfa, Perutz
e Leonar.
João
Mellico, que foi funcionário do Schneiker, confirma o cliente
Foto Brasil.
(...)
Foto Brasil, ele comprava caixa, antigamente usava chapas de
vidro, então ele comprava caixas fechadas, originais, ia direto
se tinha um
carroceiro, tinha um carrinho com cavalo. Nós pegava aquele que
era sério, muito forte, ele
pegava aquela caixa no ombro e subia a escada lá em cima
no último andar, caixas com duzentos quilos.
Com
relação ao trabalho em si , os irmãos Jacobs sempre primaram
pela divisão de tarefas, sendo que cada um tinha sua atividade
específica. Este fato é lembrado por Gunther Jacobs , filho de
Carlos: “o Erich era fotógrafo de estúdio, era o que tinha
mais prática. O Walter trabalhava no laboratório. E o Willy
com o Carlos, meu pai, trabalhavam como retocadores”. O
trabalho sempre foi um fator levado muito a sério por todos
eles, que procuravam atingir a perfeição de suas técnicas.

No início
do Foto Brasil, os Jacobs passaram por sérias dificuldades,
desta forma faziam todo tipo de serviço, inclusive trabalhavam
com reproduções de fotos trazidas por viajantes, do interior.
Nesse caso só se fazia a revelação. Walter Jacobs relembra
que, além disso, faziam “retoques para melhorar a foto,
colocava chapéu, paletó, etc. (...) também fotografias de
defuntos.”
Nesta época, por meia dúzia de “retratos de família”,
se pagava quatro mil réis. Já as primeiras 3x4 saíam a dois
mil réis a dúzia.
O
Foto Basil, pela qualidade do trabalho, conquista a população,
sendo que no final da década de 30 e início dos anos 40 fez-se
necessária a contratação de funcionários, pois houve um
aumento significativo da clientela. Este fato pode ser
comprovado a seguir, onde procuramos listar alguns dos
trabalhadores em fotografia que por ali passaram.
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Nome
Waldomiro Klug
Argemiro Klug
Isaac Krieger
Edwaldo Stutz
Werner Teitge
José Dreger
Sonio Cortese
Eugênio Reinhart
Gunther Jacobs (filho de Carlos)
Waldir Jacobs (filho de Erich)
Eduardo Khur
Duílio Giuseppe Melani
Avelino Silva
Luiz Fior
Lothar Jacobs (filho de Erich)
Rolf Schwaner
Miryan Jacobs (filha de
Erich)
Jalvi Ferreira
Ilse Jacobs (filha de Willy)
Wilson Guerra
Emile Ogar
Erwin Jacobs – Bubi- (filho de Willy)
Gualter Budal
Elisabeth Brendel
Moacir Boemer
Hildegard Herweg
Marilu Jacobs (filha de Walter)
Alferdo Murchauk
Alfredo Rogério Grohs
Ivone Ferrer
Lascir Costa
Kaol Tanaka
Jaques David (irmão da segunda esposa de
Walter)
Ruy Hoffmann
Iná Kellmer
Carlos Eduardo
Ronaldo Victor Becker
Márcio Pierre Jacobs (filho de Walter)
Mônica Jacobs (filha de Erwin)
Marcelo L. Ribeiro
Marcelo Hollenweger
Marcelo L. Ribeiro
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Ano de ingresso
1937
1937
1938
1939
1941
1941
1941
1942
1945
1945
1946
1946
1947
1947
1948
1952
1952
1953
1956
1956
1957
1957
1957
1957
1957
1959
1960
1960
1962
1964
1964
1967
1968
1969
1969
1977
1981
1987
1988
1988
1990
1994 |

Como pudemos perceber, ao longo de
sua existência o Foto Brasil sempre se preocupou em incorporar
pessoas da família, no trabalho.
Esta característica de empresa
familiar é um traço marcado pelos imigrantes, uma vez que
dessa forma tinha-se maior facilidade na condução do trabalho,
assim como, de certa maneira, podia-se garantir a continuidade
destas empresas.


No final de 1946 um incêndio
atingiu o prédio, causando grandes prejuízos, principalmente
nos laboratórios e no depósito. Perdeu-se grande parte do
arquivo fotográfico do Foto Brasil, apagando-se assim dezesseis
anos de memória produzida por ele. Esta foi a única vez em que
o Foto mudou de local, indo para a rua Ébano Pereira nº 28 –
1º andar, permanecendo então o tempo necessário para a
reconstrução do prédio.

Maio de 1954, domingo – Erich, com
toda a sua dedicação ao trabalho, falece no próprio Foto
Brasil. Walter, então, ficou trabalhando sem sócios até 1970,
quando convidou o funcionário e grande amigo Isaac
Krieger para fazer sociedade. Desta maneira o ateliê fotográfico
passou a chamar-se Jacobs, Krieger & Cia Ltda.
Erwin Jacobs, conhecido como Bubi,
era filho de Willy e começou a trabalhar no Foto Brasil em 1957
como retocador, saiu para estudar e retornou em 61, quando
passou a ser registrado como fotógrafo. Em 1980 ele se tornou o
terceiro dos sócios do Foto. Os três foram tocando o trabalho
do Foto: Walter com o laboratório e a administração; Erwin
(Bubi) dividia-se entre o laboratório, o estúdio e o retoque
(no negativo); Isaac atendia o balcão, o estúdio e nos
intervalos também fazia retoque (na fotografia). Contavam ainda
com a colaboração de Ivone Ferrer, a qual entrou no Foto
Brasil trabalhando como caixa em 1964 e hoje tornou-se gerente.
Em janeiro de 1989 Walter Jacobs vem
a falecer, sendo que, cinco meses depois, o inseparável amigo
Isaac segue o mesmo caminho.
Uma lacuna ficou no Foto Brasil, mas
ainda está lá um Jacobs para dar continuidade ao trabalho.
Bubi (que por mais que tivesse sido iniciado na profissão
contra a sua vontade, pois tinha a ambição de ser alguém,
talvez um doutor, ter um anel no dedo) captou toda a experiência
de seus antecessores, aprendeu a amar a fotografia,
principalmente no que diz respeito ao laboratório. Hoje ele é
um doutor em sua atividade e tornou-se alguém sim. Uma pessoa
que tem nas mãos uma história e um grande trabalho feito ao
longo destes 61 anos de existência do Foto Brasil.

Hoje ele ainda é o responsável pela
transmissão da atividade fotográfica para mais uma geração
de Jacobs, pois sua filha Mônica aprendeu a fazer o colorido à
mão e já está desempenhando a função, bem como Márcio
Jacobs (filho de Walter) dá seus primeiros passos no
aprendizado da fotografia.
Agora só nos resta uma pergunta:
quantas gerações ainda passarão pelo Foto Brasil?
Fonte: Boletim Inform. Casa Romário Martins.
Curitiba 18 (88) Maio 1991.
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